8 de julho de 2011

Nada errado com o coração, nem com o corpo, nem com a alma. Claro, pensando no futuro do que em termos imediatos. E isso é algo tão secreto, tão secreto que chega a ser uma desvantagem. Algo tão bobo, quanto angustias fúteis.
- Então, tome um tranquilizador para tua mente.
- E quanto as minhas inquietações, também cessarão?
- Não, essas não, as mesmas só quando freares o químico de tuas emoções.
- Ah, muito obrigada, doutor, e qual o remédio pra isso?

A indecência pura dos retratos no salão

— Porque já não te estimo o suficiente, e tu já não me amas.
Falara com segurança, mas mostrava-se surpreendida e amedrontada com o que dissera. Já não havia nos seus olhos senão uma interrogação inquieta. Continuou tristemente:
— Para pensares de mim o que pensaste, é preciso que tenhas deixado de me amar...
Era quase uma pergunta. Se ele a abraçasse, se lhe dissesse que a amava, tudo poderia ainda salvar-se. Casaria com ela, teriam a criança, viveriam juntos o resto da vida. Ele levantara-se. Ia dizer: "Amo-te." Hesitou e disse com voz clara:
— E verdade... já não sinto amor por ti.

Jean Paul Sartre - A idade da razão